
Naquela janela que quase toda a gente tem na sala e por onde somos informados das desgraças do mundo, em particular do nosso jardim à beira-mar afundando-se, ficamos a la page das vigarices, dos golpes de engenharia económica, dos eternos julgamentos (mentira: não há julgamentos eternos, há é crimes que prescrevem!) dos corruptos confessos que nós, pela carinha deles vemos que estão inocentes, dos assaltos às esquadras, da porrada que a polícia leva, dos agricultores que se queixam, dos professores que são teimosos pra burra, dos ministros que nomeiam os filhos e os amigos para cargos bem remunerados e que nunca existiram, dos “ohquechores”, da falta de memória dos mandões do papel, das qimonas, dos freeports, do encerramento de fábricas, oficinas, lojas, e discotecas (estas fecham às 4 da amanhã mas abrem horas depois – são as únicas!) ficamos a saber disto tudo e também que há emprestadoras de dinheiro, basta telefonar e 48 horas depois tens lá o papel na conta, sem perguntas, para alem, tá claro, do Marinho Pinto e da Manela Guedes que verbalmente se agrediram, pelo menos na minha tvi, que eu bem vi, etc. ah! e que o Porto ganhou o tetra. Do desemprego também.Estupidamente estou a afastar-me do que aqui me trás: dar-vos, gratuitamente a minha experiencia de caloteiro .Caloteiro vírgula, não cumpridor dos compromissos assumidos com o dinheiro que as cetelemes, cofidis, poupa-euros etc etc. me emprestaram e que fui pagando dentro dos prazos estabelecidos, enquanto cá em casa entrava em notas e moedas o nosso esforço do trabalho de todos os dias. Disso mesmo! Ora acontece que eu estou sem receber porque o produto que vendo não é de primeira necessidade como a cocaína, o haxixe, ou acções do bpn ou do bpp. E se estou sem receber não posso pagar. Estando nós a passar fominha (eu e os meus ) fui ao banco alimentar ver se havia por lá alguma coisinha. Estranhei o sorrido do pessoal e logo de seguida uma troca de olhares, depois de me olharem para as mãos, mas que não entendi. Como o Nuno é meu conhecido dirigi-me a ele e perguntei-lhe o porquê das expressões tão esquisitas: olharem-me para as mãos e trocarem olhares …- Desculpa, o que é que foi que aconteceu? – Pensávamos que trazias uns pacotes de arroz, massa ou açúcar para nos oferecer… foi só isso! Tens ali no carro? Queres alguma ajuda para descarregar? Eu ia para pedir e eles pensaram que eu ia para dar. Senti um rubor na cara e disse ao Nuno: - Oh pá, desculpa mas o que me fez parar aqui foi só para te pedir uma pequenino favor: se não te importas e se tiveres, sendo tu meu amigo, tenho a certeza que não me deixas ficar mal. Tens aí € 20 ? É que o sacana do carro engasgou-se com falta de gasosa e… - Grande amigo, tás mesmo com azar mas deixa ver ali, se a minha madrinha trouxe algum e te desenrasca. – Não Nuno, não vale a pena. Deixo aqui a viatura e vou a pé até casa e logo me safo. Desculpa lá. Saí apressadamente O carro está em penhora num canil à ordem do Tribunal. Olha a vergonha! Nervoso como ando – os ocladil e fluoxetina não me andam a melhorar – comecei a dar voltas à linha do comboio a ver qual era a melhor altura de lhe mandar um grande abraço, qual Salvação Barreto no Quo Vadis.-O que é que tu, meu malandro andas por aqui a afazer? Entra aí. Este Joaquim tem qualquer coisa de sobrenatural, de médium, de adivinho. Sempre que saio da minha rota habitual (agora mais vezes, pois) o homem aparece sempre. Conta-me a ultima anedota que ouviu, bate-me no ombro, belisca-me a orelha, dá um gargalhada e deixa-me à porta de casa. Desta vez, antes de me deixar sair e apertar-me a mão de despedida, olhou-me nos olhos e disse-me: - Toino, manda os gajos à merda. E não te chateis. O que é que tu tens? Nada? Quem deve não vai preso. Não podes pagar, não tens dinheiro, não pagas. Quanto ao telemóvel que te carreguei há dois dias, já me arrependi. Mas tá bem, empresta aí! Desligou o telemóvel e gritou-me: - não atendes ninguém. Eu sei bem porquê. – Mas um amigo pode… Quais amigos qual carapuça, pá. Agora quem te telefona, vezes sem conta, são os gajos a quem deves. Deixa correr, não ligues a nada nem a ninguém. Vai trabalhando e logo virão melhores dias. E a merda dos comprimidos, larga-os de vez. Como não bebes álcool, compensa deitar-te cedo. Durmas que não durmas. Faz por ler. Larga a televisão, Os gajos vão enviar-te montes de cartas. Não as abras. Um dia, daqui a uns meses, começam a vir uma diferentes, com o timbre dos Tribunais. Abre-as mas não ligues. Não gastes dinheiro em autocarros, selos de correio, ou táxis (sei lá!). Deixa correr. Quando um dia forem ter contigo e te perguntarem: - você é que é o senhor tal? Dizes que sim. Eles levam-te até ao Juiz, desculpas-te que andas a vadiar, nunca estás no mesmo sítio, andas de feira em feira a ver se vendes alguma coisa, pedes outra vez desculpa, e quando o Juiz te pedir a caderneta do Caixa para ver a tua reforma, ele ditará de sua justiça para os credores vampiros: - Os senhores têm direito a receber o que este homem lhes deve. Há, no entanto, aqui um problema. A reforma do homem não dá para sacar 1/6 do que ele recebe, porque a importância não chega aos 230 €. E como o Governo decretou, e muito bem, não se pode tirar essa percentagem a quem ganha menos do que o ordenado mínimo nacional.-Não me digas, Joaquim? - Tal e qual, mano.Dei um grito mesmo cá de dentro e, tão alto que a vizinhança veio às janelas: VIVA SÓCRATES.Depois do aperto de mão do Joaquim que foi de abalada e quando metia a chave à porta ainda levei na cabeça, com dois sacos de lixo cheios de restos de comida.Não estava nos meus dias.
(in rostos.pt)





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