
Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?
Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.
Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.
Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!
Miguel Torga, in 'Diário IV'





2 comentários:
Pensei que ninguém conhecia este Poema tão belo de Miguel Torga, que mandei gravar na lápide de minha mãe, quando esta faleceu.
Quero associar-me à sua homenagem que presumo seja dedicada à Mãe do Pintor Kira.
As minhas sinceras condolências ao Mestre Kira, por esta irremediável perda.
Os meus cumprimentos para quem associou Miguel Torga a essa homenagem, pois é um dos seus mais belos Poemas.
muito obrigado florbela viegas.
e a todos os que, no jornal on line rostos se dignaram mostrar a sua solidariedade com a minha dor.
Muito obrigado.
A MINHA MÃE ESTÁ NO CÉU.
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