O professor que levou Joana a ser artista
por
Pedro sousa tavares29
abril 2013

Joana
Vasconcelos, artista plásticaFotografia
© Gerardo Santos - Global Imagens
A
propósito da iniciativa Professor do Ano, o DN convida todas as semanas uma
personalidade a recordar os seus tempos de escola. Hoje, a artista plástica
Joana Vasconcelos lembra o professor de Desenho que lhe descobriu o talento e a
encaminhou para a Escola Artística António Arroio. E também a negativa que teve
a Desenho Técnico no IADE...
Quais
são as suas recordações mais antigas dos tempos de escola?
Fiz
a pré-primária em França, mas não me lembro de nada. Quando cheguei a Portugal
fui para o Liceu Francês, onde aprendi a funcionar em Português. Havia uma
professora de Português muito severa com uma voz extraordinária que dizia
sempre: "Vocês não sabem o que é estar no mundo." Esqueci-me do nome, mas dela
lembro-me muito bem. Aliás, quando fui a um aniversário do Liceu Francês toda a
gente falava dela.
Foi
uma professora marcante?
Era
a "stora" má. Ela era uma mulher dura, à moda antiga. Foi a única professora que
apanhei à moda antiga. Lembro-me dessa frase me ter ficado marcada: parecia que
o mundo era uma outra coisa que não a escola.
Despertou-lhe
a curiosidade pelo mundo?
Exatamente
isso. Pensava que o mundo havia de ser alguma coisa de especial. É verdade que a
escola é uma capa e percebe-se isso ao longo da vida.
E
quando surgiu a inclinação para as artes? Saiu do Liceu Francês diretamente para
a Escola Artística António Arroio?
Não.
Saí do Liceu Francês e entrei numa escola em Miraflores, depois estive em
Linda-a -Velha e na Secundária Marquês de Pombal. Nesta escola tive um professor
que foi muito importante, o Isolino Vaz, de Desenho. Era um homem ligado à
numistática e desenhava moedas, selos, notas.Desenhava muito bem.E foi a pessoa,
talvez, que me incentivou a seguir a carreira de artista. Foi ele que me disse:
"Valia a pena você ir para a António Arroio." E ajudou-me a ir. Eu não tinhanota
para concorrer à António Arroio - teria uma média de 14 e era preciso 15 - e ele
convenceu a professora de Trabalhos Manuais a subir--me a média. Foi assim que
entrei na António Arroio, no 10.º ano. Ele era um artista. Tinha a noção da
carreira artística. Se não tivesse ido para aquela escola muita coisa poderia
ter sido diferente.
Entrar
na Escola António Arroio foi um momento determinante?
Acho
que nunca teria concluído o liceu se não fosse a António Arroio. Eu era a típica
aluna de não estudar, era certinha, mas não estudava. Na António Arroio senti-me
em casa. Foi a primeira vez que me senti integrada no mundo. Lembro-me da
professora de Filosofia, da professora Fátima, de Desporto - fazia parte da
equipa de voleibol da escola -, do professor de Geometria, de uma professora de
Matemática também muitosevera...
E
professores que lhe tenham trabalhado a componente artística?
A
componente artística já foi no Ar.co. Antes de acabar o liceu pensava seguir
Arquitetura, mas chumbei a Matemática no 12.º ano, foi a única negativa que
tive. Decidi trocar de área e fiz um segundo 12.º ano em que tinha História da
Arte e Geometria. Como tinha tempo, inscrevi-me também no Ar.co.
Entretanto
esteve também no IADE, mas não correu bem, não é verdade?
Ao
fim de um ano concorri ao IADE e entrei, mas não foi muito positivo. Custou-me
muito ter duas negativas, a História das Ideias e a Desenho Técnico. O IADE
tinha um programa de Design muito focado num objetivo, numa tarefa. Eu, como já
andava no Ar.co, não estava habituada a regras tão severas. Seguia a minha
própria cabeça. Quando saí dessa etapa, regressei ao Ar.co e assumi uma forma de
estar na vida. Já estava a assumir uma carreira artística. Ali, tive professores
como o Miguel Branco, que me orientou e me deu as primeiras bases para me
autoestruturar enquanto
artista.
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